Jane Eyre

by - fevereiro 25, 2019


Em algum ponto da minha adolescência, li Jane Eyre emprestado da biblioteca da escola. Mas, como muita coisa daquela época, o livro nada mais era que um borrão na minha cabeça - eu me lembrava de detalhes como os corredores escuros e barulhentos de Thornfield Hall, a estupidez do Mr. Rochester que acaba se mostrando a forma como ele agia pra esconder a afeição que sentia por Jane Eyre, mas pouquíssimo sobre a infância dela e menos ainda coisas sobre o desfecho, e praticamente nada sobre a personaliade de Jane. A única certeza que tinha é que havia, sim, lido o livro, e gostado muito.


Também há alguns anos, em bons tempos do dólar mais em conta, comprei essa lindísisma edição da Barnes & Noble, honestamente sem me imaginar capaz de ler um livro com esse tamanho e com o distanciamento temporal e linguístico que temos, mas iria ficar tão bonita a lombada na estante. No ano passado resolvi finalmente ler esse livro - não sem antes considerar comprar uma nova edição, nacional. No fim das contas, arrisquei ler o que já tinha. E quão maravilhosa foi minha surpresa de não apenas me ver facilmente imersa na leitura, mas redescobrir um livro cheio de nuances, com uma escrita extremamente cativante, e, principalmente, uma protagonista que, apesar de escrita na época vitoriana, é atemporal.

Jane Eyre, que originalmente continha o subtítulo Uma Autobiografia, é um livro escrito por Charlotte Brontë sob pseudônimo Currer Bell, e publicado pela primeira vez em 1847. Mais que um romance de formação, contém em seu enredo críticas sociais pertinentes à época, uma heroína que do início ao fim se mantém fiel às suas convicções, e um romance que subverte muita coisa do gênero escrita à época.

O livro começa na infância de Jane, órfã e sendo criada na casa da esposa de um tio, que também havia morrido. Sofre desde sempre uma série de abusos físicos e psicológicos até que vai para um internato, onde essa situação continua. Mas, diferente de muitas vítimas de abuso, Jane não acredita ser culpada a ponto de receber punições, e tem muita consciência da disparidade entre palavras e ações das pessoas a sua volta. Ela espera ter um momento de redenção de todos os infortúnios de sua vida, e segue moralmente incorrompida apesar de tudo, esperando por essa paz.


Após crescer dentro do internato, inclusive se tornando professora, Jane se cansa de viver ali. Procura e encontra um emprego de governanta em um lugar chamado Thornfield Hall, uma enorme mansão, onde conhece o Mr. Rochester - um homem bem mais velho, que guarda um monte de segredos, e com quem Jane Eyre se envolve. Esse romance tem um turno bem inesperado, mas, pra evitar spoilers, basta dizer que as coisas não saem muito como o planejado e esperado em um romance mais tradicional.

E muita coisa no livro não é dentro do que a gente espera como padrão em um livro dessa época, especialmente um romance. Desde o começo, ela nos deixa claro como nunca achou o Mr. Rochester um homem bonito (ou simpático, ou educado, ou agradável num geral), mas se apaixona mesmo assim. Ele também se vê envolvido, mesmo que Jane jamais passe por uma grande transformação que a faça mais atraente. Pelo contrário, quando declara sua afeição, ela se mantém o que sempre foi e pede a ele que a ame exatamente por isso.


Jane aprende com as dificuldades, ao invés de se deixar corromper por elas. Pratica o perdão sem perder o próprio orgulho e senso de justiça, e também é humilde, recebendo com gratidão honesta qualquer tipo de ajuda em momentos de dificuldade - coisa que não falta para ela nessa história. Também é uma menina, que se torna uma mulher, de opiniões fortes, e que tem uma moral muito definida, moldada de acordo com a crença cristã de que boas ações valem o reino dos céus, e pecadores vão para o inferno. Não existem grandes ensinamentos, apenas uma moral: nossas escolhas, e o que fazemos com elas, determinam nosso destino. E nunca é tarde para seguir seu coração, nem para fazer o bem.

Não consigo deixar de tecer elogios pra esse livro, nem deixar de recomendar pra todo mundo. Foi uma releitura que acho que precisava mesmo fazer, pra redescobrir esse livro, e com isso ele se tornou sem dúvidas um dos meus livros preferidos da vida. 


JANE EYRE [1847]
Charlotte Brontë
Barnes & Noble - 2011
507 páginas


Essa minha edição não está disponível no momento - eu, pelo menos, não encontrei em nenhum lugar. Recentemente, a Zahar publicou uma edição comentada e ilustrada em sua coleção de clássicos, e é a edição que ainda estou pensando em comprar em portugês. Se você prefere no original, as edições da Penguin sempre são super confiáveis, ou, ainda, a Amazon tem um ebook disponível de graça no site.


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1 comentários

  1. Primeiro, amei as fotos!
    Segundo, nunca li esse livro, tenho a impressão de que também peguei emprestado na biblioteca quando era muito mais nova mas acabei não gostando muito, aí sabe quando depois você pega um bode sem nem saber por que? Então, preciso tirar isso da cabeça e ler ele mesmo, sua resenha me ajudou haha. ♥
    Essa edição é maravilhosa também, fiquei apaixonada!

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loathsomeness waits and dreams in the deep, and decay spreads over the tottering cities of men.” - h. p. lovecraft
REMEMBRANCE by ALINE SCHNEIDER EST. 2016